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1 de Janeiro de 2001 às 23:59

TRANSFORMAR A DECEPÇÃO EM TEIMOSIA

Apesar das traições e fracassos, as bandeiras suscitadas pelo PT já há 25 anos devem ser defendidas. Não por serem do PT, mas porque valem por elas mesmas, por seu caráter humanitário, ético, libertador e universalista. Não basta se indignar contra a corrupção política praticada pelos dirigentes do PT levantando suspeitas, a serem ainda claramente apuradas, de envolvimento de altos escalões do governo. Nem é suficiente a amarga decepção provocada na população, particularmente nos militantes do PT que suspiram cabisbaixos: “nós que te amávamos tanto, PT”. O que tem de ser suscitada agora é a esperança, pois esta é notoriamente a última que morre. Mas não qualquer esperança, esperança de bobos alegres que perderam as razões de estarem alegres na esperança. Mas a esperança crítica, aquela que renasce das duras lições aprendidas do fracasso, esperança capaz de inventar novas motivações para viver e lutar e que se consubstancia em novas atitudes face à realidade política e em conseqüência em novas iniciativas práticas. Essa esperança só tem sustentabilidade e eficácia se primeiro identificar as causas dos equívocos, dos erros e das ofensas à ética que foram cometidas. A corrupção de setores importantes do PT é a culminância de um processo que precisa ser conscientizado e criticado, caso contrário, vai repetir e perpetuar o mesmo descalabro atual. O PT foi antes de tudo um movimento nascido no meio dos oprimidos e de seus aliados: por um outro Brasil, de inclusão, de justiça social, de democracia participativa, de desenvolvimento social com distribuição de renda. Como movimento era antes de tudo carisma. Ao crescer, virou inevitavelmente uma organização partidária. Como organização virou poder. Onde há poder há disputa de poder, hierarquização e mecanismos de inclusão e exclusão. Começa então a aparecer o demônio que habita todo poder e que, se não for continuamente vigiado, pode pôr tudo a perder. Com isso não queremos satanizar o poder, mas nos darmos conta de sua lógica. Ele é, em princípio, bom: a mediação necessária para a transformação e para a realização da justiça. Portanto, ele é da ordem dos meios. Mas quando vira fim em si mesmo, perverte e corrompe, porque sua lógica interna é essa: não se garante o poder senão buscando mais poder. E se o poder significa dinheiro, ganha formas de irracionalidade: os milhões e milhões se sucedem sem qualquer sentido de limite e de responsabilidade. Foi o que, entristecidos, constatamos. Há um outro problema ligado à organização: se os dirigentes perdem contacto orgânico com a base, se alienam, se distanciam e facilmente se tornam vítimas da lógica perversa do poder como fim em si mesmo. Poder chama poder, sob todas as suas formas. Surgem as alianças espúrias e os métodos escusos. A cupidez do poder produz a corrupção. Foi o que aconteceu lamentavelmente com setores dirigentes do PT. Se estivessem ligados às bases, vendo os rostos sofridos do povo, suas lutas terríveis para sobreviver, sua vontade de lutar, de resistir e de se libertar, seu sentido ético e espiritual da vida se sentiriam fortificados em suas opções e seriam continuamente reeducados por ele e assim se impediria que sucumbissem às tentações do poder corruptor. Mas a descolagem das bases os fez perder. Agora para o PT se trata de fazer dos erros uma escola de humilde aprendizado. Para os militantes e demais brasileiros que abraçaram a causa do PT, o desafio consiste em transformar a decepção em teimosia. A teimosia reside nisso: apesar das traições, fracassos e decepções, as bandeiras suscitadas pelo PT já há 25 anos devem ser teimosamente sustentadas, defendidas e proclamadas. Não por serem do PT, mas porque valem por elas mesmas, por caráter humanitário, ético, libertador e universalista que representam. A bandeira é um sonho-esperança de um outro Brasil possível e diferente, não mais rompido de cima abaixo pela opulência escandalosa de uns poucos e a miséria gritante das grandes maiorias. Um Brasil da inclusão, com um projeto de nacão aberto à fase planetária de humanidade, um Brasil cujos governos pudessem, com a participação popular, realizar a utopia mínima de todos poderem comer três vezes ao dia, de irem ao médico quando precisassem, de enviarem suas crianças à escola, de trabalharem e com o salário garantirem uma vida minimamente digna e, quando aposentados, poderem enfrentar com desafogo os achaques da idade e poderem despedir-se agradecidos deste mundo e não maldizendo-o. Os portadores desse sonho-esperança é grande maioria dos brasileiros, sobreviventes de uma grande tribulação histórica de submetimento, exploração e exclusão. Sempre os donos do poder organizaram o Estado e as políticas em função de seus interesses, deixando o povo à margem. Tiveram e ainda têm vergonha dele, tratado como zé-povinho, jeca-tatu, joão-ninguém, carvão para o processo produtivo. Mas ele, apesar desse espinhezamento, nunca perdeu sua auto-estima, sua capacidade de resistência, de sonho e de visão encantada do mundo. Conseguiu organizar-se em inumeráveis movimentos, criou uma Igreja da libertação, fundou seus partidos de cunho popular e o PT. Essa utopia alimentou o PT histórico e ético. É retomar esta bandeira que vai refundá-lo, confiando mais na devoção que na ambição, mais na militância que na profissionalização que quer mais e mais dinheiro, severos com os marqueteiros maquiadores da realidade e dos candidatos e, por isso, farsantes. Foi esta bandeira que galvanizou as massas, que teve uma função civilizatória ao fazer que o pobre descobrisse as causas de sua probreza, se politizasse e se sentisse participante de um projeto de reinvenção do Brasil sem tantos empobrecidos e excluídos. Porque é místico e religioso (o PT soube valorizar o capital de mobilização que possui esta dimensão?) o povo brasileiro tem um pacto com a esperança, com grandes sonhos e com a certeza de que se sente sempre acompanhado pelos bons espíritos e santos fortes a ponto de suspeitar que Deus seja brasileiro. É bebendo desta fonte popular que o PT pode se renovar e cumprir sua missão histórica de refundação de um outro Brasil. Isso é o que deve ser. E o que deve ser tem força invencível. Por Leonardo Boff



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