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31 de Julho de 2020 às 14:38

Trabalhadores denunciam pressão no Santander: ‘Pior banco para se trabalhar’

Denúncias incluem aumento de metas durante pandemia, demissões e falta de prevenção ao contágio de covid-19. Assédio no Santander tira sono de bancários e de seus representantes

O telefone dos dirigentes sindicais não para. Nem de madrugada. Bancários desesperados com a cobrança por metas que consideram mais abusivas em tempos de pandemia e com adoecimentos pela covid-19. O medo do desemprego fragiliza e, para os trabalhadores, é usado como pressão no Santander, terceiro maior banco privado do país. De origem espanhola, a instituição financeira obtém no Brasil 29% de seu lucro mundial. O número aumenta ano a ano. No primeiro semestre de 2020 já chegou a 34%. Mas, denunciam os bancários, o reconhecimento não vem.

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“Já fui funcionária ‘caxias’, hoje não defendo mais o banco”, afirma, decepcionada, MSS, bancária que ainda não completou 30 anos e fez carreira no Santander. Começou como estagiária e chegou a gerente em cerca de oito anos. “Agora tenho ciência que somos número, está caindo a ficha dos funcionários: o Santander está sendo o pior”, relata, comparando a situação no setor durante a pandemia do novo coronavírus. “Temos colegas em outros bancos e não está tendo demissão. A gente se sente desrespeitada. Não sabemos se vamos ser mandados embora amanhã, não estão usando nenhum critério”, critica.

A diretora do Sindicato dos Bancários de São Paulo Vera Marchioni lembra que, mesmo quando lojas ainda estavam fechadas, no início do isolamento social, o banco enviava bancários para as ruas, “se virar” para abrir novas contas. “Essa pressão no Santander trouxe uma revolta muito grande. Fora do Brasil isso não está acontecendo. Nem na América Latina tem demissão, não tem essa forma de cobrança de metas, de cobrar que se reponham horas”, observa Vera. “Além de todo medo que as pessoas carregam (da covid-19), têm de ir trabalhar. No pior momento da pandemia, foi o banco que mais abriu agências”, denuncia.

Banco errático

“Isso tudo traz um estresse muito grande para as pessoas. O sindicato tem sido muito demandado. Todo dia muda protocolo em relação à covid. É um banco errático e sempre para prejuízo dos trabalhadores”, critica Vera.

Segundo a gerente MSS, que assim como outros nessa reportagem terá seu nome e local de trabalho preservados para que não haja risco de represálias, muita gente foi mandada embora depois de maio. Inclusive pessoas que estavam “entregando todas as metas”.

 

Ela conta que colegas demitidos fizeram a denúncia ao Sindicato. Procurada pelos representantes dos trabalhadores para explicar a pressão no Santander e os cortes, a gerência regional assumiu que não havia motivo nenhum, mas que a régua de demissão do banco estava “lá em cima” e que eles estavam só cumprindo um papel, apesar de surpresos com as demissões.

A Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) informa que a situação no Santander é a mesma em todo o país. Desde junho já foram quase 700 demissões, de acordo com levantamento feito pela entidade. “Em mesa de negociação, a direção do banco disse que não demitiria. Depois pulou fora. Isso estava registrado também em balanço encaminhado aos acionistas”, diz o secretário de Assuntos Socioeconômicos, Mario Raia, funcionário do Santander e representante da Contraf na comissão que negocia com o banco.

No balanço do segundo trimestre, divulgado na quarta-feira (29), há uma diferença negativa de 844 postos de trabalho. Esse é o saldo obtido entre as demissões e contratações. “Ou seja, o número de demitidos é muito maior do que os sindicatos conseguiram apurar, porque o banco tem contratado normalmente”, avalia o dirigente.

O movimento sindical tem feito uma série de campanhas denunciando o banco no Brasil e internacionalmente.

Lucro do Santander tem assédio

A bancária que denuncia as demissões também relata o horror da pressão no Santander para o cumprimento de metas, ainda mais sem sentido em tempos de pandemia. Entrevistada pela RBA antes da divulgação do balanço, ela cravou: tenho certeza que não vai ter nenhuma queda, a cobrança está muito insana. “Tem agência em que a meta de venda de seguro subiu 200%. Sendo que os clientes não aumentaram em 200%”, compara.

E realmente o Santander Brasil registrou lucro líquido, de R$ 2,136 bilhões, no segundo trimestre. Dependendo de como se analise o balanço, haveria queda de 41,2% em relação a igual período de 2019. Esse decréscimo, no entanto, refere-se ao aumento na provisão para devedores duvidosos (PDD ou risco de calote). O valor dobrou no período, para R$ 6,5 bilhões. Nele constam R$ 3,2 bilhões de uma provisão adicional feita pelo banco para cobrir eventual inadimplência supostamente decorrente da pandemia do novo coronavírus.

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Sem o aumento dessas provisões chamadas de crédito de “difícil recebimento”, o lucro líquido seria de R$ 7,749 bilhões e, nesse caso, haveria alta de 8,8% em 12 meses e 1,1% no trimestre. “O Santander aumentou essa provisão para dar impressão de que o lucro diminuiu. Só que não diminuiu não, e isso aos meus olhos também é uma forma de enganar as pessoas. Viu como são ardilosos? Não dão ponto sem nó”, comenta a bancária “ex-caxias”, cuja decepção transborda nas palavras.

Excelência e rapidez

Funcionária do Santander, responsável por verificar a documentação de empresas que pedem empréstimo ao banco, NON confirma o que tantos outros trabalhadores denunciam aos sindicatos em todo o Brasil. “Mesmo diante do aumento do número de empresas que fecharam e deixaram de pedir crédito, o banco cobra as mesmas metas. E você tem de fazer com excelência e rapidez.”

Por meio de reunião por aplicativos, conta NON, o gestor avisa que o banco está monitorando a hora que você entra, o que você faz, o que deixa de fazer, porque se acontecer alguma coisa você é demitido por justa causa. “É ‘aquela’ pressão no Santander. Agora algumas áreas estão fazendo um aditivo no contrato de trabalho para que os funcionários de grupo de risco fiquem em casa, mas uma vez por semana têm de ir ao banco, sem direito ao vale-transporte.”